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"A verdadeira religião não é uma manifestação exterior, é um sentimento, e é no coração humano que está o verdadeiro templo do Eterno." LÉON DENIS
Bem Vindo!

A vida continua

Publicada em: 08/07/2026 20:00 -

Eu sou tudo o que foi, é e será; e nenhum mortal jamais ergueu minha vestimenta1. Essa é a forma pela qual Plutarco, um escritor grego do final do primeiro e início do segundo século EC, menciona a inscrição contida na estátua da deusa Ísis, sentada na cidade egípcia de Saís. O termo utilizado pelo grego foi peplos, que significa manto ou véu. E a expressão revelar passou a descrever este esforço de compreender os mistérios da deusa, representando as essências verdadeiras de todas as coisas.

Para Plutarco, a deusa Ísis era a representação egípcia de Atena. Como Saís era o centro de culto da deusa Neith, frequentemente sincretizada com Ísis. Alguns autores consideram Hera (Juno) como o equivalente de Ísis, na tradição greco-romana, devido a ser ela a deusa mãe, e a protetora da maternidade.

Muitas fontes descrevem o véu de Ísis como uma tradição relacionada à natureza e seus mistérios. Na arte europeia, persiste uma longa tradição de personificar a natureza como uma figura materna e a entronização do Culto à Mater Dei, a mãe de Deus, é uma herança direta da identificação com as deusas que representavam o mistério da natureza.

Allan Kardec, ao analisar o caráter da revelação espírita, em A Gênese2, analisa que revelar é o ato de tirar o véu, trazer o assunto para que possa ser compreendido e estudado. A expressão desvendar os mistérios faz referência ao mesmo esforço de compreender o que está por trás dos véus.

O esforço realizado pela transformação filosófica na Grécia Antiga, pelos filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles – de modo particular, foi o de trazer os mistérios para a apreciação da razão. O culto ao deus Apolo, senhor do conhecimento, pretendia a explicação dos mistérios pelo Logos (ciência/razão/discurso).

Em Humberto de Campos, Espírito, vemos referências ao desvelamento dos mistérios quando, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier3, o lemos escrevendo ao seu amigo Grieco:

Depois da grande batalha de Tsushima, um dos grandes generais japoneses concitava os mortos a se levantarem, de modo a sustentar as energias exauridas dos camaradas agonizantes. E eu compareço aqui, como uma sombra, para dizer ao formoso coração de Agripino Grieco que me encontro de pé. É verdade que, depois de longa ausência, não nos encontramos nas nossas tertúlias literárias do Rio de Janeiro. Nem nos achamos num local tão famoso como a Acrópole, onde a deusa de Atenas distribuía as suas bênçãos entre os sábios. Mas há em nossas almas essa doce alegria de velhos irmãos que se reconhecem, pelas afinidades santificantes do Espírito.

 É certo que os seus olhos mortais não me veem. Todavia eu recorro ainda aos símbolos mitológicos para justificar a minha presença nesta casa de simplicidade e de amor cristão. Suponhamos que me encontro por detrás do véu de Ísis, como as forças que se ocultam aos olhos dos homens, no famoso santuário de Delfos.

Agora, meu amigo, as fronteiras do sepulcro nos separam. Para falar-te, sou compelido a me utilizar da faculdade de outros, como se empregasse uma nova modalidade de aparelho radiofônico. Teus olhos deslumbrados me procuram, ansiosamente, porém, nem mesmo a letra me pode identificar para o teu Espírito, habituado às supremas investigações de nossas forças literárias do ambiente contemporâneo. Mas nós nos entendemos no âmago do coração, compreendendo mutuamente, através das mais puras afinidades espirituais. A sombra do sepulcro não podia obscurecer a minha admiração, que se manifesta, agora, com uma intensidade ainda maior, sabendo que despiste a toga de Nicodemos, para devassar a verdade no beiral do meu túmulo.

A vida espiritual é a vida verdadeira do Espírito. O tempo que passamos na carne constitui oportunidade de aprendizado e desenvolvimento na qual o Espírito aproveita a ferramenta do corpo e os episódios da experiência, qual atleta em tempo de treinamento. Mas, é por trás do véu de Ísis que a vida se mostra em toda a sua exuberância.

Talvez por isso, tenhamos a falsa ideia de que os amigos espirituais, arrebatados para o mundo verdadeiro pelo convite insopitável da morte, possuem asas de anjos e não mais precisem lidar com as problemáticas da existência. Nossa herança cultural faz-nos pensar a vida futura como lugar decisivo entre o Céu e o Inferno… E aqui também o Espiritismo nos faz refletir.

Mostrando a necessidade de conhecermos o impacto do comportamento ético em nosso futuro espiritual o Espiritismo nos convida a pensar sobre o que está para além do véu de Ísis. Allan Kardec detalha o tema na obra O Céu e o Inferno4. Apresentando uma visão sobre a realidade Espiritual, o Codificador empreende uma análise detalhada sobre o impacto da Ética na felicidade efetiva dos Espíritos. Realizando uma pesquisa de campo, auxiliada pelos instrumentos mediúnicos, Kardec faz um levantamento das diferentes situações espirituais conforme a descrição dos Espíritos de suas condições após a morte, e assevera:

A Doutrina Espírita, no que respeita às penas futuras, não se baseia numa teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se apoia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições; são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto.

Identificando nos depoimentos as similaridades e relacionamentos com a situação espiritual de cada indivíduo, apresenta em resumo o Código Penal da Vida Futura:

O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:

 

1º) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

 

2º) A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

 

3º) Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.

    A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos proporcionada à das qualidades.

Redefinindo a ética como lei natural, o Espiritismo também vem mostrar que a realidade da vida futura traz seus desafios e necessidades para o Espírito que voltou à vida verdadeira.

O fato é que eles se ocupam e progridem, trabalham e desenvolvem habilidades e experiências. Posto que a vida por trás do véu de Ísis não é uma contemplação ociosa das belezas, nem um sofrimento perpétuo de punições, compreendemos a necessidade de estabelecer novos padrões para compreender a vida imortal.

O tema foi magnificamente resumido por Edmundo Xavier de Barros, quando escreve pela mediunidade de Chico Xavier5:

VIDA

 

Nem a paz, nem o fim! A vida, a vida apenas

É tudo que encontrei e é tudo que me espera!

O ouro, a fama, o prazer e as ilusões terrenas

São lodo, fumo e cinza ao fundo da cratera.

 

Esvaiu-se a vaidade!… Os júbilos e as penas,

A alegria que exalta e a dor que regenera,

Em cenário diverso aprimorando as cenas,

Continuam, porém, vibrando noutra esfera.

 

Morte, desvenda à Terra os planos que descobres,

Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres,

Renova o coração do mundo impenitente!

 

Dize aos homens sem Deus, nos círculos escuros,

Que além do gelo atroz que te reveste os muros,

Há vida… sempre a vida… a vida eternamente…

 

De fato, a vida do lado de cá, é sala contígua no casarão da vida imortal. Entramos e saímos dos cômodos, pelas portas do nascimento e da morte, para o devido aprimoramento de nossas possibilidades. Mas é justo recordar que, almas encarnadas ou Espíritos libertos da carne, somos companheiros da mesma construção, colegas na causa do progresso a interagir continuamente em regime de sustentação recíproca para a construção da eternidade.

 Autor:  Por André Henrique de Siqueira

 Fonte: https://www.mundoespirita.com.br

 

Referências:

1 HADOT, Pierre. The veil of Isis: An essay on the history of the idea of nature. Harvard University Press, 2006.

2 KARDEC, Allan. A Gênese. Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 53. ed. Brasília: FEB, 2013. cap. I, item 2.

3 XAVIER, Francisco Cândido. Novas Mensagens. Pelo Espírito Humberto de Campos. 14. ed. FEB: Brasília, 2014. cap. A Agripino Grieco.

4 KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. 40. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995. pt. 1, cap. VII.

5 XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de Além-Túmulo. Por Espíritos Diversos. 19. ed. Brasília: FEB, 2016.

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